quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Uma quarta e alguns parágrafos

Era para ser mais um dia daqueles. Estava contente por não ter que ir ao trabalho, variar um pouco a semana, chegar mais cedo em casa, descansar. No entanto nada disso foi possível. Acordei mais cedo do que o esperado, com um sono que parecia não cessar e meu pai veio até mim avisar que poderia descansar por mais meia hora pois iria me acompanhar. Entro naquele lento Corcel que acabara a poucos dias de ser, em partes, reformado e começa meu longo dia. Chego ao lugar determinado em cima da hora e a primeira a ser ouvida teve um atraso insuportável de quase uma hora possibilitando-me de ter o capitulo de Amanhecer que vinha lendo no carro e passar por mais dois enquanto a aguardava. Algum tempo depois eis que ela surge. Cabelos encaracolados e mais curtos dando um volume enorme onde seu inchado e branco rosto se escondia ficando até certo momento desconhecida. Calça jeans, sandália bege e uma blusa também jeans que fazia uma espécie de conjunto. Neste exato instante todos são chamados e a mesma se irrita pelo fato de não ter sido avisado sobre o meu acompanhamento de um advogado atrasando ainda mais os questionamentos que já passavam da hora de começar. Mais alguns vinte minutos de conversa entre a mesma e a comissão apuradora e começa o meu dia que seria longo
No começo, a interrogada tremia feito vara verde deixando informações soltas, sem nexo, do tipo “não sei, não me lembro, isso não cabe a minha pessoa responder”, enfim após uma calma repassada pelos presentes, exceto o nervosismo da ultima, são registradas três folhas de depoimento. Logo depois vieram as outras testemunhas, um homem e uma mulher que tiveram praticamente o mesmo depoimento indo, a meu ver, a meu favor. Já começava a ficar estressante minha presença durante horas naquela sala amarelada, com um quadro de natureza morta, cercado por mulheres de olhares ora desconfiados, ora amigáveis. Saio daquele lugar por volta das treze horas em busca de um almoço farto, pois ainda mantinha em meu enorme estomago duas bananas que comia na pressa da manhã.
Ao pegar meu prato, que parecia transbordar de tão cheio, dou uma rápida apreciada no mesmo que mais parecia um quadro de arte pop de tão colorido. Várias rodelas de tomates, queijo branco, arroz, feijão vermelho, vinagrete, claras de ovo cozido, alface, beterraba, pimentão e muita cenoura ralada. Um verdadeiro carnaval de cores. Fico menos cansado, aliás, todo cansaço era a fome. Voltamos à cena em menos de uma hora e meu pai ainda esperava na porta com um cansaço que até o mais leigo de sua companhia poderia notar. Tudo mais uma vez. A sala amarela, o quadro de natureza morta, a comissão composta por três mulheres, eu, o advogado e mais uma testemunha para ser arrolada. Foi o melhor e ao mesmo tempo mais ácido depoimento já visto naquele dia. Era dotado de certeza e critica a quem me prejudicara durante dois anos, foi como se tudo que estivesse atravessado fosse posto para fora num jato de vômito causando uma expressão de surpresa as ouvintes.
Já passavam das dezesseis horas e tudo estava praticamente chegando ao fim. Volto para o velho Corcel e dou inicio ao meu retorno. Estava exausto, mas ainda queria ver o final da bela Bella Swan que já estava me entediando, porém, estava com mais fome e quando me viro para trás afim de pegar aquele negro e extenso livro me deparo com uma sacola que cobria um papel engordurado. Eram dois salgados de queijo com milho que meu comprara pra mim. Devorei aquela fritura com tanta voracidade que parecia ter o mesmo valor nutricional da comida servida no horário do almoço. Ao chegar em casa pude notar que meu dia fora mais pesado do que se estivesse em mais um dia de serviço. Passo por minha mãe, que me pede um relatório completo de tudo onde logo depois me serve um copo de suco do qual perco todas minhas forças e desabo sobre minha cama durante horas acordando com relâmpagos acompanhados por uma fina chuva que se esvai rapidamente me deixando ainda um pouco tonto por acordar de forma tão repentina. Termino mais um dia na esperança de que tudo se encaixe no seu devido lugar aguardando a noite ir embora e recomeçar tudo mais uma vez.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

SE ESCUTASSE O PAI

Se escutasse o pai não usaria cabelos a moda dos rastafaris nem os deixaria crescer demais. Não permitira que marchassem rumo aos céus como avencas sorrateiras invadem zonas proibidas. Também não exibiria um figurino tão informal em público, camisetas sem mangas, tênis, calças gastas. Estaria invariavelmente de terno, os sapatos brilhando, a barba em ordem, a juba exígua, retraída, submissa. Se escutasse o pai nem sequer viraria professor. Seria medico, um humanista estudioso e abnegado. Ou, quem sabe se tornaria político de renome, já que o pai engrossava a casta dos que acreditam na política. O melhor seria se escutasse o pai era aposentar as gírias pois gírias não combinam com um sujeito de bem. Esqueça a cerveja menino! Bebida em excesso prejudica a voz. O diabo é que sempre adorei cervejas. Comecei degustando das mais baratas que se vendiam nos botecos perto de casa. Hoje não dispenso as estrangeiras. Às vezes até exagero um pouco. Tomo uma, depois uma e mais outra. Qual o problema? Se escutasse o pai não conheceria o frescor que emana das garrafas alemãs, belgas, norte americanas e holandesas.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Eterno Vinívius de Moraes

"De tudo ao meu amor serei atento.Antes e com tal zelo, e sempre, e tanto, que mesmo em face de maior encanto dele se encante mais meu pensamento."

"...e te amo, te venero te idolatro numa perplexidade de criança."

"Coisa mais bonita que você, assim, justinho você. Eu juro, eu não porque você. Você é mais bonita que flor."

"É melhor ser alegre do que triste, alegria é a melhor coisa que existe.É assim como a luz no coração."

Isso nunca vai parar

Apesar de depender das mesmas para me situar no tempo e ou no trabalho profissional, nunca fui ligado às datas. Sempre me policiei antes do seu “dia D”, por exemplo, para que me lembrasse com antecipação e muitas vezes o árduo trabalho funcionou outras nem tanto e no momento de cobrança ficavam com um sorriso blasé não acreditando naquele infausto esquecimento. Hoje quando chegam algumas datas comemorativas de quaisquer importância sempre faço a contagem do tempo partindo de uma data fatídica para se chegar ao dia de hoje. As lembranças de uns tempos pra cá vão ficando cada vez mais presentes tanto por meio das datas quanto por meio dos sonhos onde os últimos, acredito eu, em significativa demasia. Sonhos que infelizmente se desfazem em uma solitária manhã afastando cada vez mais a vontade de amar e viver com você perto de mim, dentro de mim.

Não há como evitar: um dia ela bate a nossa porta

O mês passa sem nenhuma agitação, sem mudança alguma que me satisfaça interiormente. Espero pelo final de semana como aquele garoto bobo, magro, de espinhas na cara, cheio de expectativas que aguarda o mesmo fim de semana para se encontrar às escondidas com a garota que seria a primeira e única namoradinha, a mulher de sua vida. No entanto os tempos mudaram e as expectativas já não são tão aguardadas quanto uma nova espinha que surge de modo inesperado. Agora tudo é mais frio como este mês, mais exato e racional quanto ao modo de vida ao qual me anexei. O final de semana corre noite afora e se esvai pelas minhas lisas mãos sem cor alguma e sem graça como muitos outros recentes. Lá se vai mais um final de semana e o início de uma nova seguem-se de uma tristeza que parece a cada hora insistir em tomar conta de todo o ambiente.
Dentro de um quarto escuro, permaneço por mais de vinte e quatro horas pensando na mesmice, na preguiça de me levantar e saber se era dia ou noite, pois se quisesse exercer tal tarefa, bastava ligar a TV e observar a programação PLIN PLIN alienante. Passam-se as horas e a tristeza insiste em ficar me levando cada vez mais para baixo. Era como se cada alteração dos ponteiros, um buraco feito um poço se abria embaixo de minha cama. Prova disso se encontrava-se estampada no meu aspecto: rosto inchado, olhos vermelhos, boca ressecada dando uma mostra mais que explicita do meu estado de estrago. Me senti sugado pouco a pouco nestas mais de vinte e quatro horas para um poço e agora me mostro todo disforme jogando por terra a imagem de homem forte e batalhador feito uma enorme muralha intransponível a qualquer onda de tristeza. Tenho medo! Medo do poço. Preciso de uma corda, uma escada, uma mola.

domingo, 17 de maio de 2009

Remake


Hoje ela me castigou como se eu fosse cristo na cruz. Me pegou de um jeito que em minha cabeça não parava de rodar um filme produzido por volta de quatro anos atrás. Tudo era como um quebra-cabeça onde as peças mais recentes se encaixavam com maior clareza dando lugar as mais antigas formando todos os episódios de um enlatado de amor. Isso nunca havia acontecido dessa maneira, hoje foi tudo mais intenso do que de praxe, o dia ficou totalmente por conta das lembranças, tudo era você, tudo tinha você, tudo era para você! Eu era uma espécie de ator coadjuvante e você a grande estrela que me deu vários finais felizes. Sinto como se nada tivesse chegado ao fim e gosto quando fecho os olhos e imagino ainda várias cenas compostas por aquele cheiro doce que lembrava infância de algodão doce, bala, sorvete, pirulito e chicle. Era uma fase que parecia não ter fim e duraria para sempre até os nossos últimos dias de vida onde estaríamos velhos e cheios de rugas sentados em uma cadeira de balanço branca dessas de madeira como nos filmes norte-americanos rodeados de filhos adoráveis e netos cheios de vitalidade querendo nosso carinho, nossa atenção, nosso amor. Repediríamos essa bucólica cena todo final do dia com sol se pondo em nossa casa de cercas brancas e árvores enormes, onde eu diria todos os dias bem de mansinho em seu ouvido como você me fez feliz por estar do seu lado. Mesmo que esse dia, esse momento de ficção possa estar cada dia mais longe de acontecer devido a um ato falho, eu queria que soubesse que toda essa vivência foi ótima para minha vida e que sem você este futuro não estaria sendo possível de se imaginar. É não haveria este futuro sem você. O que me resta agora talvez seja lamentar e recorrer às lembranças sentindo saudade de poder atuar novamente no filme de nossas vidas. Agora me apego às eternas lembranças que deixam meu peito cheio de emoções tendo a certeza de as mesmas são as sombras negras de um passado cor-de-rosa.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Meu pé esquerdo


O dia, como todos dessa semana que vem sendo intensa pra mim, havia sido corrido por demais e meu corpo ainda não poderia pedir clemência, pois ainda existiam outras tarefas a serem executadas. Deito-me por alguns instantes lembrando que exatamente as 19h25min deveria estar de pé com tênis, bermuda, camiseta, moleton e garrafa térmica em mãos, entretanto era uma terça – feira e o cotidiano cochilo utilizado no crepúsculo deveria ser adiado para outro dia. Nunca passaria pela minha cabeça que tudo a partir daquele dia, ou seja, essa mecânica rotina a qual não fui inserido e sim anexado mudaria em poucos minutos.
Tudo aparentemente normal. A aula começaria às 19h00 e eu já me encontrara no local dez minutos antes. Cumprimento pessoas como todos os dias, converso pouco com os que tenho uma “maior” intimidade e me dirijo para o salão de espelhos que por várias vezes, desde que fomos apresentados, tem sido meu amigo fiel. O movimento estava fraco, acho que era por causa do frio. É com certeza era por causa do frio! As pessoas daqui têm o sábio método de transformação: no frio embernam-se como ursos em suas cavernas e nos tempos de chuva tranformam-se em papéis ou enormes torrões de açúcar impedindo qualquer tipo de movimento externo que o valha devido ao medo de total desintegração. Enfim não cheguei a tal ponto de “enorme” sabedoria. Tudo pronto.Dirijo-me a velha corda e ficamos pulando sem parar por dez minutos até que o suor da testa começasse a causar incômodo. Logo depois vem a cama redonda cercada por molas que nos últimos seis meses tem me atraído uma vez na semana. Faço toda a preparação e lá se vai mais um dia daqueles mecânicos. Não, tudo iria ser dotado de muita dor e reviravoltas a partir daquele momento. Foram exatamente quinze minutos de saltos e em um mais extravagante minha queda foi certeira. Todos noventa e seis quilos foram arremessados daquele objeto apoiando-se no meu pé esquerdo causando a não bem-vinda mudança. Em questões de segundos estava totalmente estatelado ao chão onde minhas mãos foram responsáveis pelo amortecimento e meu pé já aparentava não ser o mesmo. Agora um inchaço tomava conta de toda sua superfície sem que se pudesse identificar onde se encontrava meu próprio calcanhar. Ao penetrar a dor, minha cabeça girava como um turbilhão sobre como seria meu resto de semana, ou o que aconteceria daqui pra frente nesta noite infausta? Seria usuário do velha incomoda bota branca ou aquilo seria uma “simples” luxação? Conseguiria trabalhar no dia seguinte ou faltaria ao serviço com esta justificativa? E o resto? O que faria? Pilates, aula de francês, caminhada, aula de historia, o que eu iria fazer se essa dor teimasse em me consumir? Eram tantos os questionamentos que o mais obvio se dependesse de mim mesmo acabaria esquecido: procurar um especialista.
A partir das 19h40min chego em casa e vou logo ao hospital. Tudo aquilo, fora o ambiente branco e cheiro de remédio misturado com sangue e mais dor me fez lembrar um filme que vi ainda em tempos da minha Barbacena Querida. Era um filme árabe com intitulado de “A Caminho de Kandahar”. Neste filme foram levantadas por nós, alunos de um 2º período de historia juntamente com uma espetacular professora de Sociologia questões culturais como por exemplo um atendimento medico daquele país. Lembro-me que fiquei horrorizado ao ver um garoto de 10 anos de idade levar sua mãe ao medico pois a mesma estava indisposta com constantes idas ao banheiro e vômitos incessantes. Ao chegar no posto de atendimento o medico ergue um cobertor maltrapilho com um furo no meio e começa a fazer perguntas sobre a saúde da mulher ao garoto pois o mesmo não poderia tocar na paciente uma vez que ela aparentemente não necessitava de intervenção cirúrgica. Era um “trialogo” se é que existe esta definição onde ambos falavam a mesma língua mas medico e paciente não poderiam se olhar ou tocar. Enfim lembro-me que tal imagem me chocou profundamente e eu carreguei aquilo como estupidez até a terça-feira desta semana.
Ao chegar ao hospital e adentrar a sala do especialista, a situação foi a mesma do filme. Não! Não existia um cobertor maltrapilho como divisória mas sim uma mesa branca onde nem sequer o profissional levantou a cabeça para olhar para o paciente e sua lesão e logo foi dando o diagnostico através de uma simples radiografia tomando notas de coisas ao meu ver burocráticas e me dispensando com o intuito que a “a fila andasse”. Me senti pior do que em Kandahar onde vi minhas horas fora de casa serem desperdiçadas por segundos. O fato é que por bem ou mal, minha tensão da semana que só tem um pouco de alivio nos finais de semana está praticamente ausente a não ser por uma ínfima dor no meu pé esquerdo e toda rotina mecânica ficou esquecida onde os hábitos estão sendo os mais distintos possíveis. É difícil não ser clichê mas: “há males que vêm pra bem”.